Gênio Criador

A Raiva Incurável

Ações Geniais

Por Cleusa Sakamoto

O mundo mudou. As pessoas deixaram de andar somente a pé: foi inventado o carro de boi, a locomotiva, a embarcação, a aeronave, o foguete, a navegação virtual, e assim, nasceu uma imaginação em 3D.

O intelecto se tornou uma entidade precificada. O comportamento observável não pode mais ser entendido como expressão da individualidade, pois ele às vezes é um fragmento não significativo da pessoa. Mas a pessoa, que é um conjunto complexo (sempre foi) de capacidades, afetividade e experiências (vividas ou incorporadas da história humana), hoje faz experimentações na sua relação com a realidade que confunde-se com ela de modo bastante diferente.

O ser humano materializou uma quantidade surpreendente de seu potencial, o que transformou a vida humana em um acontecimento extraordinário de realizações individuais e coletivas; estas, muitas vezes, podem ser apreciadas em termos de saltos qualitativos em diferentes áreas do viver humano – nas artes, na ciência, no comércio, na produção industrial, na convivência social, na comunicação, etc., etc..

O avanço tecnológico expõe a interdisciplinaridade na prática, seus inventos revelam a interconexão de conhecimentos de áreas diversas, em uma produção criativa que resulta da possibilidade desta comunicação.

Em meio a este quase indescritível cenário de talentos humanos, vemos a dimensão da afetividade em crise: buscando sua exteriorização genuína nos manifestos dos direitos humanos no mundo todo, na imprensa livre, nas trocas de múltipla natureza na aldeia global, mas parecendo deslocada quase como uma estranha, inconveniente participante do contexto humano que tem valorizado o intelecto.

Mas, os afetos, como agentes restauradores da saúde, como forças potenciais de transformação social, de mudanças pessoais, como elo que reúne um grupo em torno de objetivos comuns, os afetos como geradores do progresso sustentável, das ações de generosidade e compaixão... estes, parecem como falha, em outro sentido, como falta. Sempre quando notados, parecem inadequados...

As pessoas estão adoecendo nos ambientes de trabalho e a violência está crescendo no mundo, para citar dois exemplos. Quem sabe, são dois sintomas, de que os afetos, deslocados, parecem monstrarem uma crise existente.

Neste horizonte, observamos uma “raiva incurável”, aquela que denuncia o ultraje, o desrespeito, a inadvertida ação de macular a ordem natural do processo evolutivo – o bem estar do ser humano.

Raiva é uma emoção inata, que mostra que “algo de importância dentro de seus valores, foi esquecido”. A raiva é um afeto, emerge espontânea, um sinal, uma interpretação da nossa natureza humana, que “sabe” quando algo fere e prejudica. Nunca foi tão clara, sua existência. As pessoas estão com raiva, sentindo que a vida está sendo construída no cenário ‘humano’ de forma ‘desumana’.

Mas, sentir raiva, não deve ser entendida como autorização para matar, reagir com violência. Estas são suas reações, possíveis de ocorrer, mas não são as suas consequências desejáveis.

A raiva pode ser um indicador precioso de que a realidade não está respeitando limites e, como uma bússola, somente indica que o caminho está errado. A bússola não te autoriza desmatar a floresta para criar um caminho de fuga, ela só te dá uma direção. As ações que derivam da raiva são de responsabilidade daquele que re-age, as decisões são escolhas. A bússola nos ajuda a nos localizarmos, mas encontrar um caminho e percorrê-lo depende de outras ações e decisões.

A raiva incurável, quer dizer, << a emoção que sinaliza um desrespeito ao que é justo e necessário nunca deixará de existir >>, porque é parte de nosso sistema de sensores geneticamente determinado; mas o “seu uso”, como o de uma bússola, depende do aprendizado de seus mecanismos e interpretação de códigos e depende de nossa capacidade intelectual e desenvolvimento afetivo e ético.

A raiva incurável precisa ser acompanhada de uma fé na busca de um mundo melhor. Sentir, neste caso, é saber, que é necessário mudar certas situações na vida e promover o entendimento das diferenças individuais, exercitar uma genuína democracia, garantir direitos iguais e justos para todos... a cura pode ser alcançada, com base no respeito, que quer dizer, “olhar para trás!”.

É possível desenvolver o respeito, percebendo erros do passado e tomando decisões novas e transformadas, que serão, por sua vez, transformadoras.

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