Plataformas ajudam a verificar notícias, imagens, vídeos e conteúdos que circulam nas redes; confira também três livros que também ajudam a combater a desinformação
Por Danilo Moreira
A internet facilitou o acesso à informação, mas também tornou mais rápida a circulação de conteúdos falsos, enganosos ou fora de contexto. Com a popularização da inteligência artificial, também ficou mais fácil produzir imagens, áudios e vídeos cada vez mais realistas, que às vezes exigem certo conhecimento técnico para conseguir distinguir o que é real ou invenção.
Esse desafio ganha ainda mais relevância em períodos eleitorais. Conteúdos falsos ou manipulados podem distorcer informações, retirar declarações de contexto ou atribuir a candidatos e autoridades falas e acontecimentos que não ocorreram.
O cenário no Brasil é preocupante. De acordo com o Painel TIC – Integridade da Informação, pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), apenas 36% dos brasileiros entrevistados afirmam checar sempre a veracidade das informações recebidas por redes sociais ou aplicativos de mensagens. Outros 28% dizem fazer essa verificação na maioria das vezes.
A pesquisa mostra uma relação complexa dos respondentes com as fontes de informação: 48% afirmam desconfiar sempre ou na maioria das vezes de informações produzidas por veículos de notícias tradicionais, enquanto os índices são de 39% para conteúdos publicados por amigos ou familiares em redes sociais e 42% para informações recebidas por aplicativos de mensagens.
Em um cenário no qual a desinformação pode ganhar velocidade justamente quando a sociedade está mais mobilizada em torno de um tema, desenvolver o hábito de verificar uma informação antes de compartilhá-la se torna ainda mais importante.
Diante desse cenário, saber onde procurar informações e como fazer uma checagem básica tornou-se uma habilidade importante. O blog da Gênio Criador Editora reuniu algumas ferramentas especializadas em fact-checking, que permitem consultar checagens já realizadas, investigar imagens e vídeos e, em alguns casos, utilizar recursos de inteligência artificial como apoio à análise de conteúdos.
Também reunimos três livros que ajudam a compreender o fenômeno das fake news e da desinformação e algumas dicas práticas para identificar sinais de alerta antes de acreditar ou compartilhar uma informação que chega até você.
Veja a seguir:
Agência Lupa
A Lupa é uma organização brasileira especializada em verificação de fatos, investigação sobre desinformação e educação midiática. Criada em 2015, tornou-se uma das referências brasileiras no segmento e, atualmente, estrutura sua atuação em quatro pilares: jornalismo, inteligência, educação e inovação.
No trabalho jornalístico, a Lupa verifica informações que circulam nas redes sociais e declarações feitas por personagens públicos. Além das checagens, a organização mantém iniciativas voltadas à educação midiática e ao desenvolvimento de ferramentas para ajudar o público a compreender melhor o ambiente digital.
A Lupa também vem ampliando sua atuação diante do avanço da inteligência artificial. Em 2026, criou o VigIA, projeto que monitora conteúdos potencialmente produzidos ou manipulados por IA durante o ciclo eleitoral brasileiro. O trabalho combina monitoramento humano, análise forense digital e ferramentas técnicas desenvolvidas em parceria com o Recod.AI, laboratório de inteligência artificial da Unicamp.
Onde acessar: agencialupa.org
E-farsas
Muito antes da expressão “fake news” se popularizar, o E-farsas já investigava boatos espalhados pela internet. O site foi criado por Gilmar Lopes em 2002, com a proposta de utilizar a própria internet para desmistificar histórias que circulavam na rede.
O funcionamento é simples: o site publica análises de conteúdos que despertam dúvidas, investigando sua origem e confrontando as informações com fontes disponíveis.
Ao longo dos anos, o E-farsas passou a analisar diferentes tipos de conteúdos, incluindo textos, fotografias, vídeos e histórias virais.
Onde acessar: e-farsas.com
Projeto Comprova
O Projeto Comprova é uma iniciativa colaborativa de combate à desinformação liderada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Criado em 2018, reúne atualmente jornalistas de 42 veículos de comunicação.
O projeto trabalha de maneira colaborativa: jornalistas dos veículos participantes investigam declarações, imagens, vídeos, rumores e outros conteúdos que estejam circulando na internet. As conclusões são publicadas no site do Comprova e podem também ser reproduzidas pelos veículos parceiros.
Os conteúdos possuem uma abordagem explicativa, que, além de verificar a veracidade de um conteúdo, procura investigar sua origem, as possíveis intenções de quem o produziu e as estratégias utilizadas para torná-lo convincente e viral.
Onde acessar: projetocomprova.com.br
Aos Fatos
Criada em 2015, a organização jornalística é dedicada ao combate à desinformação. A iniciativa combina jornalismo, tecnologia e investigação para analisar informações que circulam no ambiente digital.
A equipe verifica declarações de políticos e autoridades, além de conteúdos que circulam nas redes sociais. A organização também mantém transparência sobre seus métodos, financiamento e uso de tecnologia.
O site também produz levantamentos sobre desinformação, análises de tendências e conteúdos educativos para ajudar o público a compreender como as informações enganosas são produzidas e disseminadas.
Onde acessar: aosfatos.org
Fato ou Fake
O Fato ou Fake é um projeto de checagem do g1 criado em 2018. A iniciativa surgiu em um período de forte circulação de conteúdos falsos no ambiente digital e reúne jornalistas de diferentes veículos do Grupo Globo para verificar informações que viralizam na internet.
As verificações abrangem diferentes temas, como política, saúde, economia, segurança e acontecimentos do cotidiano. O projeto também analisa declarações de figuras públicas e conteúdos que circulam em redes sociais e aplicativos de mensagens.
Além das reportagens publicadas no portal, o Fato ou Fake já levou a checagem para diferentes formatos, incluindo televisão e vídeo. A iniciativa também disponibiliza materiais educativos com orientações para que o público desenvolva hábitos de verificação antes de compartilhar uma informação.
Onde acessar: g1.globo.com/fato-ou-fake
FakeCheck
Ferramenta desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), investiga a possibilidade de uma notícia ser falsa ou verdadeira a partir de características linguísticas do texto. O projeto foi desenvolvido como uma aplicação de técnicas de inteligência artificial à identificação automática de notícias falsas.
A ferramenta foi treinada com uma base de milhares de notícias verdadeiras e falsas em português. O sistema analisa características dos textos, incluindo elementos linguísticos e gramaticais, procurando identificar padrões associados aos conteúdos utilizados em seu treinamento.
A ferramenta funciona como um recurso auxiliar e não como substituto da apuração jornalística. Em outras palavras, uma indicação automática deve ser acompanhada da consulta a fontes confiáveis e independentes.
Onde acessar: nilc-fakenews.herokuapp.com
Boatos.org
O Boatos.org é um site brasileiro dedicado à investigação de boatos e informações duvidosas que circulam pela internet. Criado em 2013 pelo jornalista Edgard Matsuki, o projeto surgiu justamente para ajudar os internautas a identificarem conteúdos falsos que se espalham principalmente pelas redes sociais e aplicativos de mensagens.
A plataforma publica verificações sobre diferentes assuntos, como política, saúde, economia, segurança e tecnologia. As análises procuram identificar a origem das informações, confrontar as alegações com fontes confiáveis e explicar de maneira didática por que determinado conteúdo é verdadeiro, falso, enganoso ou está fora de contexto.
Uma característica do Boatos.org é o acompanhamento de conteúdos que viralizam na internet. O leitor pode pesquisar diretamente pelo assunto ou afirmação que recebeu e verificar se o boato já foi investigado pela equipe. A plataforma também mantém um arquivo de conteúdos analisados, que pode ser útil para identificar informações recicladas ou que voltam a circular em novos contextos.
Onde consultar: boatos.org
Google Fact Check Tools
O Google Fact Check Tools reúne recursos voltados a jornalistas, pesquisadores e verificadores. Entre eles está o Fact Check Explorer, que permite pesquisar verificações de fatos já publicadas por diferentes organizações ao redor do mundo.
Na prática, o usuário pode pesquisar uma afirmação e verificar se ela já foi analisada por alguma organização especializada. Isso é especialmente útil quando uma mensagem em evidência parece nova, mas na realidade reproduz um boato que já foi investigado anteriormente.
A ferramenta também possui recursos relacionados à pesquisa por imagens e à marcação estruturada de checagens. É importante destacar que o Google não produz nem endossa as verificações encontradas no sistema: ele funciona como um mecanismo para localizar checagens publicadas por terceiros.
Onde acessar: Google Fact Check Tools
S.N.A.K.E.
O S.N.A.K.E. é um assistente virtual baseado em inteligência artificial desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos. O nome vem de System for News Authentication and Knowledge Evaluation (Sistema para Autenticação de Notícias e Avaliação do Conhecimento).
Diferentemente de ferramentas que simplesmente classificam uma notícia como verdadeira ou falsa, o S.N.A.K.E. foi desenvolvido para apresentar fontes, evidências e argumentos que ajudem o usuário a analisar o conteúdo.
A proposta é estimular o pensamento crítico e permitir que a própria pessoa compreenda os elementos utilizados para avaliar determinada informação.
Onde acessar: snake.inteligentehub.com.br
Realis
O Realis é uma ferramenta brasileira que utiliza inteligência artificial para auxiliar na verificação de notícias antes que elas sejam compartilhadas.
A plataforma permite que o usuário cole o link de uma notícia para que o sistema analise seu conteúdo e compare as informações apresentadas com outras fontes.
A proposta é facilitar uma primeira checagem de conteúdos que circulam na internet. A ferramenta apresenta o que encontrou durante a análise, permitindo que o usuário tenha acesso às fontes utilizadas e possa avaliar as informações antes de considerá-las verdadeiras ou repassá-las.
Onde acessar: realis.news
3 LIVROS SOBRE FAKE NEWS

As ferramentas ajudam a verificar conteúdos que chegam até nós. Mas compreender como a desinformação é produzida, distribuída e potencializada pelas plataformas digitais também é importante. Para quem deseja aprofundar o tema, três livros ajudam a ampliar essa discussão.
Como funciona a máquina das fake news — e como desarmá-la? – Agência Pública
A Agência Pública também reúne materiais que ajudam o leitor a compreender a lógica por trás da desinformação. A proposta de trabalhos desse tipo vai além de simplesmente apontar que determinada informação é falsa: o objetivo é mostrar como conteúdos enganosos são produzidos, distribuídos e recebidos pelo público.
A discussão é especialmente relevante porque a desinformação não depende apenas da existência de uma mentira. Ela também envolve mecanismos de distribuição, estratégias de engajamento, exploração de emoções e utilização de plataformas digitais para alcançar públicos específicos.
Nesse contexto, materiais produzidos por organizações de jornalismo investigativo como a Agência Pública são úteis para entender os bastidores do fenômeno e desenvolver uma postura mais crítica diante de conteúdos que chegam pelas redes sociais e aplicativos de mensagens.
Para ver o material, acesse aqui.
Fake news e inteligência artificial: o poder dos algoritmos na guerra da desinformação, de Magaly Prado
No livro “Fake news e inteligência artificial: o poder dos algoritmos na guerra da desinformação”, a jornalista e pesquisadora Magaly Prado investiga a relação entre a disseminação de notícias falsas, as redes sociais e os algoritmos.
A obra parte de um problema que ganhou novas dimensões com a evolução tecnológica: as mesmas ferramentas digitais que ampliaram o acesso à informação também podem ser utilizadas para manipular e distribuir conteúdos em grande escala. Com o avanço da inteligência artificial, esse cenário se torna ainda mais complexo.
O livro também discute o potencial da própria inteligência artificial para atuar no combate à desinformação. A autora apresenta dados e análises sobre o fenômeno e aborda as possibilidades e os desafios de utilizar tecnologia para identificar conteúdos falsos.
A obra foi lançada em 2022, pela Edições 70.
A Máquina do Ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital, de Patrícia Campos Mello
O livro parte da experiência profissional concreta para discutir o funcionamento das campanhas de desinformação e dos ataques coordenados no ambiente digital. A autora investiga a maneira como as redes sociais passaram a ser utilizadas para disseminar mensagens falsas e campanhas de difamação.
A obra também aborda as transformações provocadas pelas redes sociais no debate público e na atividade jornalística. Patrícia acompanha o fenômeno a partir de diferentes experiências internacionais e brasileiras, incluindo sua investigação sobre disparos em massa de mensagens durante as eleições de 2018.
Além do fenômeno das fake news, o livro discute violência digital, liberdade de imprensa, campanhas de difamação e o papel de robôs e redes coordenadas na circulação de mensagens. O relato combina investigação jornalística e experiência pessoal da autora como alvo de ataques digitais.
O livro foi lançado em 2020 pela Companhia das Letras.
COMO COMBATER FAKE NEWS NO DIA A DIA

Nenhuma ferramenta substitui completamente a capacidade de analisar uma informação. Mesmo plataformas especializadas podem ter limitações, especialmente quando o conteúdo é muito recente, está fora de contexto ou depende de informações que ainda não foram verificadas.
Por isso, antes de compartilhar uma notícia, foto ou vídeo, veja como alguns cuidados simples podem ajudar:
Não compartilhe imediatamente
Conteúdos que provocam indignação, medo, surpresa ou euforia tendem a estimular o compartilhamento impulsivo. Pare alguns segundos e pergunte: de onde veio essa informação?
Procure a fonte original
Em vez de confiar apenas em um print ou em uma publicação que reproduz determinada afirmação, tente descobrir onde a informação apareceu originalmente.
Pesquise em mais de uma fonte
Se um acontecimento realmente relevante ocorreu, procure informações em veículos jornalísticos, órgãos públicos, universidades ou instituições diretamente relacionadas ao assunto.
Observe a data
Uma informação verdadeira pode se tornar enganosa quando reapresentada como se fosse atual. Isso acontece frequentemente com fotografias e vídeos antigos utilizados para ilustrar acontecimentos recentes.
Desconfie de títulos muito apelativos
Expressões como “URGENTE”, “COMPARTILHE ANTES QUE APAGUEM” ou “A mídia não quer que você saiba” podem ser utilizadas para provocar uma reação emocional antes que o leitor analise o conteúdo.
Não confunda opinião com informação
Um comentário, uma interpretação ou uma previsão não necessariamente pode ser tratado como fato. Identificar essa diferença ajuda a evitar conclusões precipitadas.
COMO IDENTIFICAR IMAGENS E VÍDEOS FALSOS PRODUZIDOS POR IA
A inteligência artificial tornou a produção de imagens, áudios e vídeos sintéticos muito mais acessível. Por isso, sinais que antes ajudavam a identificar uma montagem, como erros grosseiros em rostos ou objetos estão ficando menos confiáveis.
Ainda assim, alguns procedimentos ajudam na investigação:
Observe detalhes da imagem
Procure mãos, dedos, dentes, textos, placas, sombras, reflexos e objetos ao fundo. Esses elementos podem apresentar inconsistências, embora modelos mais recentes de IA estejam cada vez melhores nesses aspectos.
Faça uma busca reversa
Use ferramentas como Google Lens ou os recursos disponíveis no InVID para descobrir se aquela imagem já apareceu anteriormente na internet e em qual contexto.
Analise o vídeo por quadros
Em vídeos manipulados, alguns sinais podem aparecer apenas durante determinados frames.
Verifique o contexto
Uma imagem pode ser verdadeira e, ainda assim, estar sendo utilizada de maneira enganosa. Descobrir quando, onde e por quem ela foi publicada originalmente é tão importante quanto descobrir se ela foi editada.
Procure a fonte original do vídeo
Se um vídeo supostamente foi exibido por uma emissora ou publicado por uma autoridade, procure a versão original nos canais oficiais. Comparar as duas versões pode revelar cortes ou alterações.
Não confie cegamente em detectores de IA
Ferramentas automáticas podem ajudar, mas não são infalíveis. Elas podem estar sujeitas a respostas contraditórias e deixar passar manipulações. Por isso, a análise técnica deve ser combinada com investigação de origem, contexto e outras evidências.
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Com informações de: Canaltech, Nexo Jornal, Latam Journalism Review e Agência Pública
Fotos: Unsplash