Faça a diferença e multiplique!

Conheça dois exemplos de como gestos de gentileza podem fazer a diferença

Dois casos de pessoas criativas mostram como a sociedade precisa de atitudes gentis para ser melhor

Por Danilo Moreira

Você já foi gentil com alguém hoje? Mais do que um gesto de civilidade, a gentileza faz parte de uma harmonia social que demonstra respeito pelo próximo e torna a sociedade mais justa. Infelizmente, sabemos que quando o assunto é gentileza, o Brasil ainda deixa muito a desejar. Quem já não teve o seu dia estragado por ser ignorado ao dar “bom dia” a alguém, por exemplo? Mas, diante desse cenário, que a princípio parece desanimador, existem pessoas que já marcam presença na sociedade com ações voltadas justamente ao resgate das gentilezas. Uma delas é o empresário social e turismólogo Luiz Gabriel Tiago, de 39 anos, que recentemente foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz 2018 por conta do “Treinamento Gentileza”, projeto que desenvolveu com o objetivo de estimular a empatia pelo próximo.

O treinamento possui 22 horas de duração e quem o faz passa a ter acesso à empresa social Pontinho de Luz, rede criada pelo empresário e que conta com 35 mil pessoas engajadas em diversas ações sociais realizadas no Brasil e no exterior. No treinamento, os participantes são estimulados a se colocarem no lugar do outro para entender melhor as angústias, alegrias e tristezas. Essa capacidade de se ver no outro é fundamental para atitudes solidárias.

O curso é pago e o dinheiro arrecadado é destinado às iniciativas do grupo, que também recebe outras doações. O nome “Treinamento Gentileza” surgiu inspirado no Profeta Gentileza, famoso pela criação da frase “Gentileza gera gentileza” (confira no final da matéria mais detalhes sobre essa figura icônica). Também inspirado no Profeta, o empresário também passou a ser conhecido como Senhor Gentileza, por conta de suas atividades nesse assunto.

Nascido em Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, Tiago começou a trabalhar aos 16 anos como vendedor ambulante no Centro do Rio de Janeiro. Para pagar o cursinho pré-vestibular, também trabalhou como office-boy, e a partir dessa época já passou a observar o quanto o sentimento da empatia (sentir o mesmo que o outro) pode fazer a diferença especialmente em momentos difíceis. Tiago passou a desenvolver ações, organizar grupos de ajuda para vítimas de enchentes, doações em asilos e creches, entre outras iniciativas solidárias.

Em entrevista ao Gazeta Online, Tiago contou que o tema gentileza já era presente em sua vida, mas achava incoerente falar tanto no assunto mas não colocar em prática algo nesse sentido. “Pensei em fazer uma ONG, mas isso limitaria minha atuação, porque eu precisaria também de um meio de sobrevivência”, relata. Sua jornada começou mesmo em 2005, quando teve contato com o conceito de empresa social, que em linhas gerais, incentiva a criação de um negócio com mecanismos que proporcionem ações solidárias. Na época, o Nobel da Paz Muhammad Yunus reforçou a importância desse modelo e sua projeção internacional inspirou muitos empreendedores sociais a criarem seus projetos, sendo Tiago um deles. O rapaz escreveu vários livros sobre relações humanas, sendo um deles o best-seller “Gentileza no Trabalho” (Editora Ideias e Letras), lançado em 2012, que aborda a importância das relações saudáveis para obter conquistas na vida profissional e pessoal. Nessa época, Tiago já realizava palestras e treinamentos em empresas cujo tema gentileza serve como estímulo para o aprimoramento do trabalho em equipe.

Luiz Gabriel Tiago

Mas, o Senhor Gentileza sentia uma necessidade de colocar o seu trabalho em prática de uma forma que gerasse mais impacto na realidade. Desde que foi fundado em 2010, a Pontinho de Luz já arrecadou mais de 500 toneladas de alimentos para famílias carentes, além de promover doações mensais de cestas básicas no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de outras ações solidárias que vão desde doações, distribuição de doces e até campanhas de abraços públicos (pessoas que ficam com cartazes com dizeres como "Abraço grátis"). O projeto nasceu em Niterói com um pequeno grupo que participava de ações de solidariedade e sua sede funciona até hoje na casa do empresário no bairro onde cresceu, em Várzea das Moças.

Agora, com o seu “Treinamento Gentileza” indicado ao Nobel da Paz 2018 em meio a 300 projetos sociais em todo o mundo, o empresário tem colhido frutos dessa indicação. “Ainda estou muito surpreso com toda essa repercussão sobre a indicação para o prêmio Nobel. Isto é maior do que qualquer coisa que pude imaginar", afirma. Até março, a Academia Sueca, organizadora do evento, vai divulgar uma lista com os finalistas. O resultado final do prêmio está previsto para o final de 2018. Além de Luiz Gabriel Tiago, a ativista Maria da Penha Fernandes também foi indicada pelo trabalho ao combate à violência contra a mulher. Vítima de agressões do ex-marido, que a deixou em uma cadeira de rodas, seu caso resultou na lei federal 11.340/06, conhecia como Lei Maria da Penha. Brasileiros indicados ao Nobel são um exemplo importante para o sentimento de orgulho à nação.

“Gentileza gera gentileza”

Provavelmente você já deve ter ouvido falar na frase acima, e cada vez mais ela tem sido utilizada como um importante chamariz à reflexão do tipo de sociedade que estamos nos tornando. O autor dessa frase, que é o nosso segundo exemplo de pessoa que investiu na gentileza, nasceu em 1917 em Cafelândia, interior de São Paulo. Vindo de uma família de 11 anos, desde muito novo, José Datrino dizia que tinha “uma missão na Terra”.

Mas ele se tornaria famoso somente nos anos 1960, após um incêndio no Gran Circus Norte-Americano de Niterói em 1961. Na ocasião, mais de 300 pessoas morreram, em sua maioria crianças. Comovido, Datrino, que morava no Rio de Janeiro, afirmou ter ouvido “vozes astrais” e foi até o terreno do circo para plantar um jardim sobre as cinzas e consolar voluntariamente às famílias das vítimas com palavras de conforto. Foi daí que o simpático senhor ficou conhecido como “José Agradecido” e “Profeta Gentileza”, sendo este último o apelido que se consolidou.

Seu trabalho de espalhar palavras de conforto, amor, bondade e respeito ao próximo se tornaram famosas no Rio de Janeiro e o Profeta Gentileza passou a percorrer as ruas da capital fluminense, além de ônibus, praças, praias, pontes, calçadões e até as marcas da travessia Rio-Niterói. Quando alguém o chamava de maluco, ele costumava responder “Sou maluco para te amar e louco para te salvar”.

Profeta Gentileza

Nos anos 1980, o Profeta Gentileza preencheu 56 pilastras do viaduto da Avenida Brasil, entre o Cemitério do Caju e o Terminal Rodoviário do Rio de Janeiro com frases e poesias com reflexões sobre a sociedade. Geralmente compostas em tintas nas cores azul, verde e amarelo, suas palavras chegaram a ser cantadas por músicos como Marisa Monte e Gonzaguinha, além de serem citadas em filmes, novelas e até trabalhos acadêmicos.

O Profeta Gentileza nos deixou aos 79 anos em 1996 na cidade de Mirandópolis, interior de São Paulo. No ano 2000, o professor do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenador do Movimento Rio com Gentileza, Leonardo Guelman, pesquisou a história do ativista e lançou o livro – Brasil: Tempo de Gentileza (Editora da Universidade Federal Fluminense). Em 2009, outro livro sobre o tema foi publicado, chamado Univvverrsso Gentileza (Ed. Mundo das Ideias). Em 2001, O Profeta foi homenageado pela Escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio, com o enredo “Gentileza gera gentileza, amor”, cujo desfile foi desenvolvido pelo carnavalesco Joãozinho Trinta.

Na cidade onde Datrino viveu seus últimos anos, os parentes e amigos criaram a ONG Gentileza Gera Gentileza, a primeira da cidade, com a missão de difundir educação e cultura na região, levando o legado do Profeta Gentileza.

Esses foram dois exemplos de brasileiros que sabem que a gentileza faz a diferença na sociedade e pode produzir resultados surpreendentes. Gentileza aproxima pessoas e afasta dores.

Com informações de: InfoMoney, Gazeta Online, Gazeta do Povo, Terra, Pontinho de Luz (Facebook).
Fotos: Pontinho de Luz (Facebook/Divulgação), Revista Prosa Verso e Arte

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